Cunha: Cerâmica artística

A argila, material barato tirado do chão que pisamos, fornece os meios de vida também para os oleiros de tijolo (tradicionais em Cunha) que conduzem uma indústria totalmente manual. Saiba mais abaixo.

O barro transformado

Cultura e tradição

Cunha tem uma cultura caipira que ganhou caráter próprio pelo isolamento prolongado. A população original de Cunha estava voltada essencialmente para a produção agrícola de alimentos básicos, a pecuária e a produção de tijolos. 

Primeiro com os índios, e depois com os colonizadores: a introdução das olarias de tijolos e a arte das paneleiras da roça transmitiram a tradição de sua ligação com o barro. Em 1975, um grupo de artistas-ceramistas se instalou no antigo matadouro da cidade e construiu o primeiro forno Noborigama*. Acabava de ser lançada a base da transformação de município rural a centro cultural de extrema importância na área da cerâmica de autor.

Com a vinda dos primeiros ceramistas, Cunha pôde ver o advento da produção de cerâmica artística que resultou em um novo movimento de crescimento. Através da atração dessa atividade criativa dinamizou-se toda a indústria turística da região, de hotéis a restaurantes, do comércio ao setor de serviços. Hoje, novos empreendedores estão despontando em Cunha com a produção de gado, de ovinos e de caprinos, estabelecendo um novo patamar econômico na cidade. 

Cerâmica artística

A argila, material barato tirado do chão que pisamos, fornece os meios de vida também para os oleiros de tijolo (tradicionais em Cunha) que conduzem uma indústria totalmente manual, sem construções permanentes e em que o próprio forno é uma caieira provisória montada com os tijolos crus; essa argila é a mesma que os ceramistas usam para a produção de suas peças artísticas. Assim, Cunha tornou-se o cenário ideal para a  produção cerâmica de alta temperatura. Lastreada na tradição japonesa do forno Noborigama que exige madeira para a alimentação da fornalha, Cunha reúne a matéria-prima necessária: a madeira de reflorestamento, que possibilita o funcionamento das caieiras e dos fornos, e a argila, retirada das margens de seus rios, riachos e encostas. Dessa forma, estava montado o ambiente produtivo básico que viabilizou o crescimento desse aglomerado, lastreado na criatividade dos seus autores, artistas do fazer produtivo. 

Cunha reúne mais de 25 ateliês de artistas, uns remanescentes da antiga geração, outros que chegaram na década de 80 e outros mais novos que optaram por viver em Cunha a partir de 2000. E, o mais importante: novos artistas vêm surgindo oriundos da própria comunidade.

Nos ateliês abertos à visitação podem ser encontradas cerâmicas queimadas em baixa a alta temperatura para endurecer a argila e torná-la cerâmica.  Esculturas, painéis, mosaicos, objetos, cerâmicas para a mesa, para o olhar e para fazer parte do dia-a-dia; cada ateliê cultiva sua própria identidade e característica e possui o seu próprio espaço onde o ceramista pode ser artista, artesão, escultor, artista plástico, arquiteto, pintor… 

* Noborigama – em japonês: o forno que sobe montanhas.

O forno Noborigama com suas várias câmaras, em várias horas de queima a lenha, atinge a temperatura de 

1.400º C para vitrificar a argila com pedras moídas, minerais decantados, cinzas de casca de arroz e cinzas de lenha de eucalipto, criando superfícies de grande resistência e beleza.

Foto por: Anita di Marco